21 fevereiro 2023

Cais Palafítico da Carrasqueira

Situa-se na Reserva Natural do Estuário do Sado e é daquelas construções em que o engenho humano resolveu, com simplicidade, um problema.
No estuário do Sado, durante a baixa-mar, os pescadores sentiam bastantes dificuldades em ultrapassar o lodo do leito do rio e aceder às suas embarcações, de forma a poderem zarpar para águas livres e, aí, poderem pescar.
Assim, alguns pescadores, em meados do século XX, mais concretamente nos anos 50 e 60, tiveram a ideia de construir um passadiço de madeira para ultrapassar os efeitos da natureza e aceder mais facilmente aos seus barcos.

Aos poucos, novas estacas de madeira e tabuados foram sendo adicionadas, chegando-se ao pequeno labirinto de passadiços e recantos que hoje em dia existem.

É uma verdadeira obra-prima da arquitectura popular, construída de uma forma irregular, aparentemente frágil sem o ser, que continua a cumprir plenamente a missão para que foi idealizada. 

Ao invés do que aconteceu com o Nautilus aqui, desta vez estava preia-mar. A Serra da Arrábida, sempre presente por aqueles lados, vislumbra-se ao fundo.

07 fevereiro 2023

Faial & Pico V

E lá fomos até à ilha do Pico. O vento era imenso e chovia abundantemente mas, a negritude do basalto em contraste com aquele azul do mar fascina qualquer um.
Como acontece muitas vezes, o Pico adivinhava-se, resguardado num "capacete" de nuvens que o protegia de olhares indiscretos.
Embora não seja propiamente grande apreciador dos vinhos da ilha, é de realçar e louvar o esforço que há muito é efectuado pelos picuenses para ter um acesso mais fácil e rápido a esta mística bebida. 
Chegado às Lages, um velho moinho recuperado, junto à marginal, serve de miradouro e observatório de aves, muitas, que por ali andam. 
E depois, aquela pequena mas grandiosa maravilha que é o museu da vila, totalmente consagrado aos heróis anónimos que, noutros tempos, caçavam baleias.
Adoro estes desenhos gravados em osso que contam histórias de vidas duras que acabaram, mas que deixaram registos de respeito, nobreza e honra para todo o sempre, em homenagem àqueles homens. 
E pensar que, sem mais nada que não fosse a vontade e a coragem, era nestas pequenas embarcações que se travavam lutas de vida e de morte em pleno Oceano Atlântico. Hoje em dia, muitos são os descendentes dos antigos baleeiros que, convictamente, protegem estes fantásticos animais. No entanto, o orgulho no passado recente dos seus avós permanece bem vivo.   

21 janeiro 2023

A água e os moinhos

Nas margens da ribeira de Contença, em São Pedro do Sul, junto ao Bioparque do Pisão, existe um conjunto grande de moinhos (uma dezena) que faziam parte do ciclo de fabrico do pão. Vários deles (ou todos?) foram recuperados e são visitáveis.
As levadas são em aqueduto, quase todas feitas de pedra (foto de cima)
Mas uma delas é feita de troncos de árvore escavados. Nesta altura a água era mais que muita e já está alguma de reserva

10 janeiro 2023

O portinho avieiro de Salvaterra

Em Salvaterra de Magos os apoios à pesca, e especificamente aos avieiros, não se limitam à muito conhecida aldeia de Escaroupim de que já falámos aqui.
A Vala Real de Salvaterra serve também uma marina (ou fluvina), localizada junto ao núcleo urbano. Imediatamente a jusante existem umas instalações de apoio à pesca que incluem um conjunto muito engraçado de armazéns de aprestos, uma rampa de acesso à água e um cais acostável. No jardim adjacente (entre a marina e o portinho de pesca) está um monumento de homenagem da população de Salvaterra de Magos aos homens do mar.

26 dezembro 2022

Ermida da Coroada

Junto à ribeira da Toutalga, perto de Safara, localizava-se o monte da Coroada, junto do qual (no lado esquerdo da foto) está a antiga Ermida da Coroada, agora completamente abandonada. A ermida pertencia à antiga freguesia da Coroada, suprimida em 1851, sendo o orago, desta freguesia e igreja, Nossa Senhora das Neves. A ermida é constituída por dois corpos, o da igreja e o altar-mor. Entrando pelo lindíssimo portal percebe-se que o interior está também em péssimo estado de conservação, sendo, no entanto, possível imaginar quão bonita deve ter sido. No tecto da capela mor a abóbada está ainda intacta, podendo-se ver, nos remates, as pedras com as armas das ordens de Cristo, Santiago e Avis e alguns vestígios de antigas pinturas. Numa das paredes laterais da capela também existem pinturas mas não as consegui fotografar. As estátuas do altar-mor já não existem e o corpo da igreja está uma lástima. No entanto, consta que nesta ermida se terá celebrado, em 1481, um casamento real no âmbito do tratado das Terçarias de Moura (não consegui confirmar). Entre os anos 40 e 60 a ermida (ainda) teria um corpo adossado do lado esquerdo (ver aqui), que, no entanto, em meados da década de 60 já não existiria (ver aqui).
Porquê o estado de degradação?

23 dezembro 2022

17 dezembro 2022

Na estrada da floresta

No dia em que fui revisitar o mosteiro de São João da Arga tinha passado antes por uma das florestas mais bonitas do país: a paisagem protegida do Corno do Bico.
O Outono ainda estava a instalar-se, mas os azevinhos já estavam cheios de bagas, e também se viam árvores cobertas de líquens e alguns fungos/ cogumelos bem estranhos. É interessante também ver a quantidade de vacas minhotas que andam por ali, devem ser um bom contributo para evitar incêndios. Ainda passei pela antela da Cruz Vermelha, que data de 2500 AC. Os miradouros estão em sítios bonitos, pena os painéis de interpretação de paisagem estarem completamente queimados pelo sol, ou seja são inúteis. E os painéis de localização com os mapas da Paisagem Protegida também não estão grande coisa: este era um dos que estava em melhor estado.

10 dezembro 2022

Homens sem coração

Interrompo aqui a sequência da minha viagem ao Faial & Pico, dado que me ofereceram este pequeno livro auto-biográfico que a Fundação Francisco Manuel dos Santos, em boa hora, decidiu editar na sua colecção «Retratos». Decidi partilhá-lo convosco, já que para além das viagens realizadas na época dos Descobrimentos, a pesca do bacalhau foi, quanto a mim, a segunda grande epopeia marítima em que os portugueses estiveram envolvidos. 

«Guilherme Piló Sales seguiu a tradição dos antepassados pescadores da Nazaré e foi pela primeira vez ao bacalhau com dezassete anos, em 1960. Seguiram-se sete campanhas como pescador à linha nos pequenos barcos dóri, nas águas tempestuosas dos Grandes Bancos da Terra Nova e da Gronelândia, na designada Faina Maior, a Epopeia do Bacalhau, um dos episódios mais esquecidos e mais notáveis da história marítima portuguesa.» 

02 dezembro 2022

Faial & Pico IV

Em Setembro de 1957, a 300 metros da Ponta dos Capelinhos, Ilha do Faial, registou-se uma crise sísmica com várias centenas de ocorrências. Após este “preambulo”, pelas 6:45 horas do dia 27 de Setembro, teve início uma erupção vulcânica submarina que, após alguns dias, originou a emissão de jactos de cinzas vulcânicas a cerca de 1000 metros de altura, acompanhados de uma nuvem de vapor de água que ultrapassou os 4 km de altitude.
A partir de 13 de Outubro, estes fenómenos passaram à emissão de gases e a deflagrações de piroclastos, começando a ser rapidamente sucedidos por violentas explosões que atiraram bombas de lava e grandes quantidades de cinza para o ar, enquanto que, por baixo, correntes de lava escorriam para o mar. A erupção evoluiu, acabando por formar uma pequena ilha chamada de "Ilha Nova" (ou "Ilha do Espírito Santo"), que chegou aos 800 metros de diâmetro e a cerca de 100 metros de altura; afundou-se no dia 29 de Outubro tendo, a partir desta data, a actividade vulcânica diminuído de intensidade.

A 4 de Novembro de 1957 a erupção vulcânica recomeçou e rapidamente aparece uma nova ilha, desta vez com um istmo ligado à ilha do Faial. A actividade eruptiva aumentou progressivamente atingindo o seu máximo na primeira quinzena de Dezembro, em que surgiu um segundo cone vulcânico.

Depois de uma noite de chuva torrencial e abundante queda de cinza, a 16 de Dezembro, cessou a actividade explosiva e começou o escoamento de lava incandescente a que se juntaram, três dias depois, explosões com jactos de cinzas e muitos blocos de pedra. Precisamente, no dia 29 de Dezembro, toda esta actividade eruptiva conheceu uma nova e breve pausa.

De Janeiro a Abril de 1958, reapareceram jactos de cinzas, tendo-se formado, junto ao farol e nas áreas adjacentes, dois areais que atingiram vários metros de espessura. A partir do dia 14 de Maio a actividade passou ao tipo estromboliano (explosividade média intermitente) com fortes ruídos, acompanhados de ondas infra-sónicas (frequência abaixo do espectro audível humano) que fizeram estremecer portas e janelas em toda a ilha e, por vezes, nas ilhas próximas, com a projecção de fragmentos de lava incandescente que subiram a mais de 500 metros de altura. Também nesse dia, surgiram fumarolas no fundo da Caldeira (vulcão central da ilha do Faial), que emitiram vapor de água com forte cheiro a enxofre e com lama em ebulição.
Em resultado da erupção, a área total da ilha do Faial (de 171,42 km²) aumentou em cerca de 2,4 km². Actualmente, essa área foi reduzida para cerca de 1/3, devido à natureza pouco consolidada das rochas e à acção erosiva do mar e do vento.

O Vulcão dos Capelinhos, situado na península com o mesmo nome, é hoje reconhecido como um marco na vulcanologia mundial, integrando o farol existente no local, desde Maio de 2008, o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos.
Fonte: vários textos sobre o acontecimento

01 dezembro 2022

1º de Dezembro de 1640

No dia 1 de Dezembro de 1640, cerca de 40 nobres invadiram o Paço da Ribeira, em Lisboa, para derrubar a dinastia castelhana que governava Portugal desde 1580 e restaurar a independência do reino. Prenderam a chamada vice-rainha e governadora de Portugal, Margarida de Sabóia e defenestraram o seu secretário de estado, Miguel de Vasconcelos.
Depressa a boa nova alastrou a todo o país, acabando com a instauração da IV dinastia em Portugal e com a subida ao trono e aclamação do rei, o Senhor D. João IV.